A cobrança por resultados cresce a cada ano, e o que antes eram “motivos de festa”, hoje são “objetivos à serem cumpridos”.
O comportamento padronizado dos atletas é reflexo disso.
Mesmo que jogue no Corinthians, você não pode vir na coletiva de imprensa e dizer que vai vencer o XV no fim de semana.
É desrespeitoso, dizem alguns. É anti-ético, dizem outros.
Como se os estádios fossem ambientes corporativos.
Tá tudo muito chato, de fato.
Mas essa semana, presenciamos um absurdo fruto dessa mutação a qual o futebol está sendo exposto.
Vou aproveitar e embarcar na história protagonizada pelo meia Léo Rocha, do Treze de Campina Grande, pra falar um pouco mais sobre esse quadro preocupante que se apresenta.
Primeiramente, é necessário tentar entender porque o torcedor embarca nessa ideia de que deve cobrar seu clube como se fosse lucrar com ele.Essa postura começou nos anos que rondaram a virada do milênio, com as primeiras quedas de times grandes para a Segunda Divisão.
Aquilo era tão inédito e o vexame supostamente tão “insuportável”, que o torcedor se viu na obrigação de exigir mudanças profundas em seus times de coração.
É válido você querer que o time para o qual torce esteja sempre forte, consolidado e disputando títulos.
O problema é trazer os problemas do seu clube para sua vida, quando obviamente ele não faz o mesmo.
Não se pode deixar fugir aos olhos o fato de que não se trata de vida é real, é pra ser divertido e não trabalhoso.
“Mas não é divertido perder”.
Eu sei, o problema é que, do modo que tratamos os jogos, tiramos também um pouco da graça de ganhar.Seu time vence uma partida e você não comemora. Sente alívio.
Tá errado.
A partir daí passa a exigir que o clube faça boas parceiras, aumente a exposição na mídia, assine bons patrocínios.
Coisa que não é sua função.
Você é torcedor. Torcedor torce.
E se a exigência hoje já é grande onde nem deveria existir, imagine então aonde ela de fato deve estar presente.
Vivemos a era onde erros em campo não são perdoados.Jogadores ficam marcados pra sempre por 3 segundos de infelicidade.
Somos incapazes de rir do nosso próprio time quando o mesmo dá razões para tal.
E o pior, realizamos cobranças por vezes bem hipócritas.
Criticamos no Dagoberto a ousadia que elogiamos no Neymar, por exemplo.
E é aí que chegamos ao nosso personagem da última quarta-feira.
Botafogo e Treze-PB se enfrentaram pela primeira fase da Copa do Brasil.
Na Paraíba 1x1. No Rio, 1x1 novamente. Disputa de pênaltis.Disputa comendo solta, uns batendo bem, outros mal.
Entre erros e acertos chegou a vez da quinta cobrança do Botafogo.
Loco Abreu foi pra bola, tentou bater sem cavadinhas ou outras frescuras, e errou.
Era a chance do Treze empatar e levar a disputa para os alternados.
Léo Rocha foi o escolhido.
Em sua cabeça passava o fato de estar no Rio de Janeiro, no jogo da Globo para o Brasil inteiro, contra um grande do futebol nacional, e Loco Abreu, aquele das consagradas cobranças com cavadinhas, acabara de perder sua cobrança.O cara decidiu tentar ele uma cavadinha.
Se faz, hoje era cotado pra ir para o Cruzeiro ou São Paulo.
Mas perdeu, assim como Loco perdeu muitos.
Inclusive um faz pouco tempo, na semifinal da Taça Guanabara contra o Fluminense.
Perguntado na ocasião se queria se desculpar com a torcida, deu uma sábia resposta.
“Desculpas tem que pedir quem rouba ou pega a mulher dos outros”.
Colocou o futebol no seu devido lugar.
Voltando aos “pênaltis da vida” de cada um, o uruguaio por sua vez teve o seu Botafogo x Treze em 2010, na Copa da África.
E lá, quando tinha que fazer, fez. Por isso é o reconhecido Loco Abreu.
Do contrário seria um tal Sebástian uruguaio.
Léo Rocha tentou se consagrar, perdeu o pênalti e o Treze foi eliminado da Copa do Brasil 2012.
Até hoje, sempre que alguém passou por isso, recebeu a justa compreensão e apoio do time.
Afinal é um pênalti caramba. Qualquer um pode errar.
O Messi perde pênalti. O Pelé perdia pênalti.
O Neymar, em 2010, ficou famoso pela quantidade de pênaltis que perdia.
O menino não tinha nem 50% de aproveitamento.
Marcelinho Carioca, na semifinal da Libertadores de 2000, e Zico nas quartas de final da Copa do Mundo de 86, perderam pênaltis infinitamente mais importantes que o de Léo Rocha.
Causaram muito mais sofrimento às suas respectivas torcidas. Mas foram perdoados pela razão óbvia.
Depois que passa o calor (e o ódio) do jogo, todo mundo lembra que são seres humanos, que erram e sempre podem errar.
Mas o Léo Rocha não podia. Supostamente não é humano.
Foi execrado, covardemente esculachado por jogadores oportunistas do Botafogo (que não fariam a mesma coisa contra o Flamengo) e chutado do clube por um presidente torcedor, que parece decidir as coisas de cabeça quente ainda no vestiário.
Este gol contribuiu na eliminação dos colombianos.
Dez dias depois, já de volta a Colômbia, Escobar foi assassinado por um torcedor em frente à uma discoteca de Medellín.
Comparação pesada né?
Mas estamos caminhando pra isso.
Eu ainda me recuso a deixar qualquer joguinho ruim estragar meu dia.
É entretenimento e sua função é divertir.
Obviamente, aquela final que seu time perder vai te deixar bem triste por um tempo.
O importante é não se deixar cegar com isso e partir pra próxima.Empolgado como se fosse a última partida da vida de cada um de nós.
Mas consciente de que não é.
