sábado, 17 de março de 2012

Crônicas de uma morte anunciada

E Adriano não é mais jogador do Corinthians.

Foi dispensado, assim como na Roma, sem ter feito nada que justificasse sua contratação.

Como de costume, já se comenta uma possível volta ao Flamengo, lugar onde ele “se sente em casa e contará com o apoio que precisa para desenvolver seu melhor futebol”.

Quando na verdade sabemos que isso não é mais possível.

Porque ele não vai lutar por isso.

No que até sou capaz de entender.

O que não entendo muito bem são os investimentos que ainda são feitos nele.

Mas Flamengo é Flamengo, já diria o craque que durou dois anos.

E inclusive hoje faz lobby pela vinda de seu ex-companheiro de Seleção.

Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Vágner Love...

Fortes emoções à vista para a galera do Mengão.

Mas o foco aqui não esse (pelo menos não ainda). Quero falar um pouco disso que o Adriano se tornou.

E do que poderia ter se tornado.

Adriano surgiu no Flamengo, na virada do milênio, como mais um atacante trombador e comunzão.

Fez seus golzinhos naquela época em que o Flamengo ia bem nas Copas Mercosul e sempre ganhava a final do carioca contra o Vasco.

Em 2001, foi vendido para a Inter de Milão, que por sua vez, emprestou-o a Fiorentina no ano seguinte.

Em Florença jogou pouco e seu empréstimo foi repassado ao Parma ainda em 2002, onde as coisas começaram a melhorar.

Adriano foi destaque da equipe marcando 26 gols em 44 jogos entre 2002 e 2004. Uma média de mais de meio gol por jogo, ótimo número para um novato.

Em consequência do bom desempenho, a Inter cresceu o olho e puxou o menino de volta.

E aí ele explodiu de vez.

Entre 2004 e 2008 foi titular da equipe e marcou mais de 70 gols.

Nos anos de 2004 e 2005 inclusive, se tornou o grande centroavante da Seleção Brasileira, e uma das maiores esperanças para a Copa da Alemanha.

Nesse período, nasceu a alcunha que seguiria com ele até hoje.

Agora, o Adriano da Vila Cruzeiro, era Adriano, o Imperador.

Apelido imponente, pesado. Tanto quanto as cobranças que viriam na sequência.

Alguns creditam a despirocada que o Adriano deu na carreira a morte do pai.

O que não faz muito sentido, já que o pai dele morreu em agosto de 2004, exatamente quando ele começou a virar o grande Imperador.

Acabo pendendo a acreditar que Adriano foi mais um que não conseguiu conviver bem com o fato de ser uma estrela mundial.

Como se sabe, a maioria dos jogadores brasileiros vieram de origem bem humilde, como o caso de Adriano, na Vila Cruzeiro.

E nem todo mundo recebe uma criação com qualidade o bastante para formar um adulto de cabeça boa, pronto pra encarar o que der e vier.

Observem que estou falando de criação, e não de formação acadêmica.

Não saber ler não te dá o direito de ser cretino. Por isso não é meu foco.

Voltando aos jogadores, quando um desses que não desenvolveram sua maturidade o suficiente e nunca tiveram acesso aos benefícios do dinheiro, passam a ganhar R$ 50.000 por semana, a tendência é do cara se perder e fazer uma besteira atrás da outra.

Quando se deixa levar por aqueles “prazeres” um pouco mais perigosos que a vida oferece aos que tem como pagar, pode ser um caminho sem volta.

Como o caso de Adriano, da Vila Cruzeiro.

Adriano não tem nenhum problema emocional ou dificuldade de relacionamento no meio do futebol.

Talvez um pouco de desmotivação, mas isso não é o principal.

Depois que ficou rico, Adriano se tornou alcoólatra.

Ele não é baladeiro, bandido ou ruim de grupo.

É alcoólatra.

Depois que a coisa desandou na Inter, foi emprestado ao São Paulo, no ano de 2008.

Fez gols, voltou a ser convocado, parecia que a coisa ia pra frente.

Mas não foi.

Novamente o Adriano atleta foi derrotado pelo outro.

E foi derrotado de tal modo que, ao voltar para a Itália em 2009, Adriano se disse disposto a encerrar sua carreira de jogador aos 27 anos, idade em que a maioria dos jogadores vivem seu auge técnico e físico.

Com a aposentadoria precoce, o contrato com a Inter de Milão foi rescindido sem multa.

Não se sabe até que ponto a Internazionale lamentou o “calote”.

E digo calote por que a tal aposentadoria não durou três meses.

De volta ao Rio de Janeiro, Adriano foi seduzido pela chance de voltar a jogar pelo Flamengo.

E agora com status de estrela, ele conseguiu a única motivação que ainda o impulsionaria a jogar um futebol de bom nível.

Virar ídolo do time do coração.

Adriano jogou 47 partidas, marcou 34 gols, e deu o hexacampeonato brasileiro para o Flamengo como artilheiro da competição.

Aí sim, um desempenho digno.

Mas então o único objetivo que o mantinha lutando contra seu problema extra-campo foi alcançado.

E começou tudo de novo.

Adriano, ainda beneficiado pelos respingos de reputação que lhe restaram, foi contratado pela Roma.

Ficou por lá uma temporada inteira.

E marcou um gol. Na goleada por 13x0 da Roma num amistoso preparativo contra a seleção da região de Riscone Brunico.

Demorou para os romanos perceberem o péssimo negócio e se livrarem do problema.

Eis que surge o Corinthians.

Absurdamente vendo em Adriano um cara capaz de substituir Ronaldo no coração dos torcedores.

Logo de cara, rompimento do Tendão de Aquiles.

O que no fim das contas, foi ótimo para o Corinthians. Principalmente para Tite.

Perdeu quase o ano todo mas voltou, na reta final do Brasileirão.

O Timão tava na briga pelo título e precisou do Adriano no finzinho do jogo contra o Atlético-MG, no Paacaembu.

Adriano entrou e marcou o gol da vitória.

Pronto, era o que precisava pra todo mundo falar na volta do Imperador.

E aquilo que eu falei anteriormente, do cara precisar de um grande objetivo para vencer o Adriano Alcoólatra, foi alcançado logo de cara.

Adriano se tornou o ídolo de um gol só.

E voltou a enfiar o pé na jaca.

Após três meses de enganação, a situação ficou insustentável e o treinador teve de exigir a demissão do jogador.

E agora, volta-se a falar em Adriano no Flamengo.

Pra ele seria ótimo. Lá o cara já é ídolo, vai ser carregado nos braços e não precisará fazer muito.

A função de goleador, hoje, é do Vágner Love.

Para o Flamengo, que investiu 22 milhões no Love e paga 1,3 milhão de reais por mês para o Ronaldinho, Adriano a 300 mil por mês nem soa tão absurdo.

Mas é triste perceber a visão de negócio de quem administra o clube de maior torcida do País.

É isso que o Flamengo quer pra si?

Restos de jogadores que já foram bons?

Enquanto a evolução administrativa é nítida nos rivais Vasco e Fluminense, o Flamengo se apega a um método antigo, ultrapassado.

Se endivida cada vez mais e não dá perspectivas de renovação.

Voltando ao Adriano, lá no começo do texto disse que sou capaz de entender o fato do Adriano não lutar para voltar a ser aquele grande jogador de outros tempos.

Primeiro porque o cara já está com 30 anos.

Segundo porque ele já está podre de rico.

Terceiro, porque mesmo sem dar razão nenhuma pra nenhum clube, sempre tem alguém querendo pagar milhões de reais anuais pra ele.

É uma história triste de um cara que poderia ter se tornado o sucessor da linha de centroavantes brasileiros classe A.

Careca, Romário, Ronaldo e Adriano.

Mas preferiu não sê-lo.

E terminar sua história como mais um jogador que fez muito menos do que poderia.

Nós, poderíamos daqui a vinte anos, lembrar dele como o Imperador de Milão, o Tanque de Guerra da Seleção, o Novo Fenômeno...

Mas não vai rolar.

Ele será pra sempre só um Adriano.

O Adriano da Vila Cruzeiro.